Construção midiática do Fenômeno Ronaldo: Ascensão e declínio do corpo no esporte


 

RESULTADO DE INVESTIGACIÓN: Proyecto de investigación: “Consumo y construcciones mediáticas: cuerpos diferentes en el fútbol” - Programa de Maestría en Comunicación y Prácticas de Consumo de la Escuela Superior de Propaganda y Marketing ESPM, Sao Paulo, Brasil

 

Resumo


Este trabalho apresenta alguns resultados parciais da investigação “Consumo e construções midiáticas: corpos diferentes no futebol”, desenvolvida junto ao Programa de mestrado em Comunicação e Práticas de Consumo, da Escola Superior de Propaganda e Marketing - Brasil. Pretende-se abordar a construção midiática do jogador de futebol Ronaldo (Fenômeno) em duas fases: 1) no início de sua carreira, quando é apresentado como um fenômeno e 2) no momento em que precede sua aposentadoria, caracterizado pela decadência física. O corpus é formado por três matérias veiculadas na mídia impressa brasileira no período de 1996 a 2011, as quais foram selecionadas porque representam três momentos significativos da carreira do jogador. A partir da Análise do Discurso de linha francesa e da interface entre os estudos da comunicação midiática e do consumo, objetiva-se investigar as estratégias de construção das representações midiáticas, a partir da cultura do futebol na sociedade brasileira, de modo a analisar a caracterização do referido jogador como um “corpo diferente”, cujo desempenho revela-se superior ao dos demais jogadores.


Introdução


Esse artigo se propõe a abordar a representação do corpo e a construção midiática do jogador de futebol Ronaldo Nazário de Lima, no início de sua carreira, quando é apresentado como um fenômeno, um corpo diferente, com desempenho acima da média em relação aos demais jogadores e no momento em que precede sua aposentadoria, caracterizado pela decadência física. Nossa análise considera as representações do corpo no seu aspecto físico e nas características do jogo. Evidenciaremos também o papel que o futebol representa nesse contexto, suas relações com o consumo e suas possibilidades de servir de alicerce para a “construção midiática” de Ronaldo. Entendemos por construção midiática a divulgação intensa de um fato social ou de uma figura pública, de modo a conferir visibilidade e promover o interesse público por meio da contínua apresentação de novos fatos ou de decorrências.


Definimos Ronaldo como objeto desse trabalho porque acreditamos que ele é um caso exemplar de construção: considerada pela mídia como um ídolo e um legítimo herói nacional por seu desempenho no início de sua carreira, seu carisma e títulos conquistados e sua trajetória mostra vários momentos de superação, tanto nas esferas esportivas como a pessoal.


Neste artigo analisamos três matérias veiculadas pela mídia brasileira, que abordam e identificam aspectos de desempenho do jogador citado, de suas características físicas, consideradas como uma diferença em relação aos demais jogadores. Essa análise será realizada a partir de conceitos da Análise do Discurso, de linha francesa, assim como também fazendo interfaces com os conceitos de comunicação e consumo.


Representações de corpo na Mídia


O século XX pode ser considerado como o período da invenção teórica do corpo. Para Corbin, Courtine e Vigarello (2008) essa invenção surgiu em primeiro lugar da psicanálise, com Freud, que postulou que o inconsciente manifesta-se no corpo. Seguiu-se a este um segundo passo, que talvez se possa atribuir a idéia que Edmund Husserl fazia do corpo humano como o ‘berço original’ de toda significação. Para esses autores, a terceira etapa dessa descoberta do corpo emergiu do terreno da antropologia, da surpresa que Marcel Mauss experimentou, quando observou, durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), a infantaria britânica desfilar num passo diferente do passo dos franceses e cavar buracos de maneira singular, caracterizando uma nova noção de técnica corporal.


A partir desse ponto, Mauss fez uma reflexão histórica e antropológica do tema. Consequentemente, na visão desses mesmos autores, o corpo foi ligado ao inconsciente, amarrado ao sujeito e inserido nas formas sociais da cultura. “Faltava-lhe um derradeiro obstáculo a transpor: a obsessão linguística do estruturalismo. Esta, desde o pós-guerra até a década de 1960, ia, com efeito, enterrar a questão do corpo com a do sujeito e suas ‘ilusões’” (CORBIN, COURTINE, VIGARELLO, 2008, p. 8). Na década de 1990, a Conferência Geral da Unesco adotou uma Declaração Universal sobre o genoma humano e os direitos humanos. Dessa forma, a genética constituiu um conjunto de predisposições e de probabilidades que permitem prever os comportamentos futuros de indivíduos aparentemente saudáveis e normais:


O corpo genético é então o corpo quadriculado da população, corpo atravessado por normas e regularidades. Lugar do controle e da formação do “eu”. Nestes três sentidos, ao menos, a genética transformou e contribuiu para transformar, com outras mutações, o nosso olhar sobre o corpo: corpo digitalizado e programado do homem universal, corpo sofredor, exposto e, no entanto, ativo do enfermo, corpo quadriculado e normado da população (CORBIN, COURTINE, VIGARELLO, 2008, p. 85).


O corpo então passa a ocupar lugar central nas ciências sociais. A partir dele podemos discutir as questões éticas, as performances louváveis e as deficiências de desempenho esportivo por meio do jogo de futebol, por exemplo. Também podemos fazer a avaliação do jogador a partir do corpo em movimento. Construir um estudo analítico que evidencie teorias a respeito do tema. Todavia, “advertimos que não existe uma única teoria do corpo, pelo contrário, há uma riqueza de respostas” (MUÑIZ, LOST, 2007, p.9, tradução nossa).


Ainda para Corbin, Coutine, Vigarello (2008) o corpo também ocupa um lugar no espaço. E ele mesmo é um espaço que possui seus desdobramentos. Esse corpo físico, material, pode ser tocado, sentido, contemplado. Ele é esta coisa que os outros vêem, sondam em seu desejo. Ele desgasta-se com o tempo e pode ser considerado como um objeto da ciência. Para esses autores, falar da história do corpo equivale a olhar tudo que cerca o indivíduo e o contextualiza. Dessa forma, estaríamos, definitivamente, diante de um tema de infinitas possibilidades. “Na história do corpo revela-se o universo cultural, religioso, social e econômico do indivíduo e da sociedade.


A história do corpo é a história da própria vida humana” (CORBIN, COURTINE, VIGARELLO, 2008, contra capa 1).


O corpo dos sujeitos é também uma ‘verdade’ que se pode ‘verificar’, ou uma certeza em momentos incertos. “o corpo dos sujeitos representam algo mais que suas capacidades físicas, adquirem uma importante significação para sua própria existencia ao ter a possibilidade de construir-se de maneira que gostaria de ser” (MUÑIZ, LOST, 2007, p.7, tradução nossa). Para Camargo e Hoff (2002), o corpo comunica e, por consequencia, revela a cultura. Para esses autores, a maneira de percebê-lo, interpretá-lo e de estabelecer relações são criações humanas que se constroem na cultura, de forma que cada sociedade constrói uma visão de corpo, que representa os seus valores.


Seguindo na defesa desses mesmos autores, percebemos que todo discurso se realiza na linguagem que, na sua dimensão física, concretiza as concepções económicas da sociedade. Nesse sentido, o discurso está materializado no corpo, que deixa de ser apenas corpo para ser, também, “texto de cultura e passível de leitura por todos os membros do grupo cultural” (CAMARGO, HOFF 2002, p.22).


Se pudermos admitir o corpo como texto de cultura passível de leitura, podemos também evidenciar o corpo pela ótica da mídia. Nessa dimensão o corpo veiculado nos meios de comunicação, para Camargo e Hoff (2002), não é o corpo da natureza, nem exatamente o de cultura na sua dimensão e expressão de corpo humano:


é imagem, texto não-verbal que representa um ideal. É o que denominamos corpo-mídia: construído na mídia para significar e ganhar significados nas relações midiáticas (...) o corpomídia é um simulacro e consiste numa síntese de corpo – somatória de todas as suas manifestações -; já o corpo na vida cotidiana, preso ao biológico a ao cultural, segue desesperado na tentativa de se adaptar à síntese, isto e, ao modelo (...) o corpo-mídia é pura imagem e vazio de significados afetivos: nele não há história a ser contada nem cultura a ser revelada. Nesse sentido, põe fim a todas as diferenças do corpo natural, pois abriga todos os corpos não possui a essência de nenhum em particular. Consiste num referencial de corpo porque, além de ser uma imagem idealizada, é amplamente divulgada pelos meios de comunicação de massa (CAMARGO, HOFF, 2002, pp.26-27).


Ao pensarmos num referencial de corpo, chegamos ao ponto crucial de nosso objeto de estudo nesse artigo, pois a mídia, ao atribuir significados ao corpo, pode valorizar um modelo em detrimento do outro, pode atuar no aprimoramento da substância e em sua identificação exemplar para tê-lo como basilar e servir de método editorial, passível de construção midiática. “Na medida em que o inserem nas relações comerciais, valorizam-no enquanto imagem ideal a ser perseguida e transformam-no numa referência hegemônica, capaz e suplantar a diversidade e as características físicas de carne e osso.


Entendemos – a partir de Camargo e Hoff (2002) – que a mídia divulga um modelo de atleta para sustentar suas necessidades mercadológicas. Esse corpo passaria a ser um produto, recebendo um tratamento adequado, semelhante a qualquer outro produto de mercado. Ao lado do corpo-produto existiria uma gama de produtos que, direta ou indiretamente, pertencem ao mercado atlético, tais como: revistas, jornais, livros, roupas, acessórios esportivos etc. Podemos ainda moldá-lo, desenhá-lo a partir de tatuagens, dar-lhe ornamentos como piercings e brincos, mas não podemos estar no mundo sem ele, já que o corpo é síntese física da nossa existência, o complemento de todo o ser humano. Dele não nos separamos e, ao que nos cabe analisar, toda ancoragem da diferença também está no corpo do jogador.


Entendemos “diferença” como aqueles elementos que promovem distinção. No caso do jogador de futebol, a diferença é representada nas características físicas avantajadas que o tornam mais rápido ou mais vigoroso que os demais, posibilitando um desempenho superior que os demais. Ronaldo, no início de sua carreira, apresentava essas condições.


Esses pressupostos das diferentes representações do corpo nos permitem analizar por que o jogador Ronaldo Nazário de Lima pode ser considerado “diferente” na ótica da mídia. Todavia, antes, abordaremos o papel do futebol e sua interface com o consumo e a comunicação como forma de sustentar essas questões propostas.


Futebol, consumo e comunicação


O futebol compreende tanto a esfera da mídia quanto a do consumo - material e simbólico – atuando no âmbito de negócios e na construção de identidade nacional. É indubitável o papel do futebol na dinâmica social. O esporte tem considerável penetrabilidade em todas as camadas sociais e tem seu papel na construção da identidade e cultura de um país. Essa visão é defendida por Ruben e Damo (2001):


O futebol também pode ser visto como uma linguagem. Em alguns casos, é um código que todos os homens têm que ser capazes de utilizar. No país em que o futebol é um esporte popular, se parte do pressuposto que todos estão interessados nele, e, por conseguinte, podem e querem falar sobre ele. O futebol neste caso passa a ser uma forma de falar sobre o país ou sobre a identidade nacional. (RUBEN e DAMO, 2001, pp.23-24 – tradução nossa)


O esporte mobiliza esferas emotivas importantes do indivíduo. “Um dos modos de explicar por que o futebol mobiliza sentimentos profundos, se deve ao fato de que as equipes em jogo são muito mais que onze jogadores e representam sentimentos coletivos daqueles que o apoiam” (RUBEN e DAMO, 2001, p. 20 – tradução nossa). Para Villas (2007), estar num estádio durante a disputa de uma partida de futebol não é um mero ato de recepção de um espetáculo esportivo, mas o que constitui uma arena da sociedade na qual é possível encontrar “aspectos públicos de uma cultura” (Apud Arquetti 1985, p.2) e “interpretar de maneira oblíqua e complexa as características de uma formação social através das práticas rituais que desenvolvem os torcedores de futebol nos estádios” (VILLAS, 2007, p.176, tradução nossa). Sobre o tema, o autor completa:


O futebol constitui um espaço simbólico no que se desenvolvem múltiplos discursos, representações e práticas capazes de produzir imaginários e identidades que determinam e condicionam formas de socialização, modelos de conduta e diferentes usos e representações do corpo. O pertencimento a uma equipe cobra o mesmo valor para quem pertence e para quem o percebe como um ofício, uma filiação política ou o pertencimento a uma região (VILLAS, 2007, p.176, tradução nossa).


O futebol assemelha-se ao ritual, com inúmeros elementos que evidenciam a dramaticidade, a paixão e a história de um país. Os jogadores são mais que esportistas, são atores na arena da construção identitária de uma nação, de uma agremiação ou de um povo.


A televisão, a internet, as revistas e jornais especializados dão grande destaque ao futebol e propagam cada vez mais a sua cultura, produzindo resultados para além do âmbito do esporte. Na esfera do consumo, podemos entendê-lo (e consequentemente o consumo produzido e induzido por ele) como promotor de estilos de vida, sendo, então, parte das estratégias do capitalismo tardio.


O consumo pode ser pensado de outra forma: além do ato de consumir (comprar/usar/descartar produtos) por si só. É possível abordá-lo como simbólico quando tomamos, por exemplo, as representações do corpo do jogador de futebol como parte do consumo estético ou ideal de corpo desejado. MARTÍN-BARBERO (1997) revela que o consumo não é apenas reprodução de forças, ele é também uma produção de sentidos: lugar de uma luta que não se restringe à posse dos objetos, pois passa ainda mais decisivamente pelos usos que lhes dão forma social e nos quais se inscrevem demandas e dispositivos de ação proveniente de diversas competências culturais. “O espaço da reflexão sobre o consumo é o espaço das práticas cotidianas enquanto lugar de interiorização muda da desigualdade social, desde a relação com o próprio corpo até o uso do tempo, o hábitat e a consciência do possível para cada vida, do alcançável e do inatingível” (MARTÍN-BARBERO, 1997, p.290). De um lado teríamos, então, corpos considerados “normais”, isto é, dos jogadores em “plena forma” e de outro lado, os “corpos diferentes”, os “fora de forma” (física indispensável para o exercício do esporte), mas que ainda possuem apelo mercadológico e esportivo. Nessa perspectiva, a mídia pode ser considerada uma instância de criação de sentidos, significados e identidades para os consumidores – que são estimulados ao consumo, principalmente, por conta do valor simbólico que determinado objeto carrega. Se é por meio do produto que o indivíduo se sente parte do grupo (mesmo que isso seja apenas uma ilusão criada pela propaganda), o mundo futebolístico se torna ideal para explorar produtos “exclusivos” (camisetas, por exemplo) feitos “especialmente” para o “seleto” grupo de torcedores, ávidos por esses objetos (pois só de posse deles poderão seguir como membros do grupo) mantendo, assim, o desejo e o consumo, seguidos de novos desejos que exigem mais consumo, num ciclo vicioso e infinito.


Com o que foi exposto até o momento, direcionamos agora o nosso olhar para o evidente papel que a cena midiática representa no cerne da sociedade contemporânea, o que, na nossa visão, auxilia nas escolhas de consumo dos sujeitos, já que a “cultura da mídia” faz a “ponte” para o ato de consumir. O sujeito faz parte dessas relações mediadas e está exposto a esses sistemas de escolhas. Sobre o papel da mídia no consumo, Kellner (2001) observa que:


Em geral, não é um sistema de doutrinação ideológica rígida que induz à concordância com as sociedades capitalistas existentes, mas sim os prazeres propiciados pela mídia e pelo consumo (...) usando o espetáculo para seduzir o público e levá-lo a identificar-se com certas opiniões, atitudes, sentimentos e disposições. (...) A cultura da mídia e do consumo atuam de mãos dadas no sentido de gerar pensamentos e comportamentos ajustados aos valores, às instituições, às crenças e às práticas vigentes (KELLNER, 2001, p.12).


A mídia também pode ter uma esfera reflexiva, de forma que ela nos leva a refletir sobre as suas estratégias e produções, sendo uma das leituras possíveis do mundo. Para Camargo e Hoff (2002), a mídia seleciona, organiza e propaga as informações, mas o que ela apresenta a respeito de muitos temas que aborda não é a verdade absoluta, “é apenas uma leitura possível, um dos muitos aspectos de um mesmo tema. Ou seja, é informação pura, seleção de dados e não conhecimento” (CAMARGO, HOFF, 2002, p.55).


Para Rocha (2009) vivemos numa sociedade midiática e estudar suas características é algo necessário. Para essa autora, falar em sociedade midiática equivale a localizar a centralidade e o espraiamento da lógica midiática na efetiva estruturação das localidades, seja em termos de sua materialidade, seja em suas dimensões simbólicas. Esta lógica e estas dinâmicas penetraram em macro-contextos sociais. “A sociedade se midiatizou. A comunicação contemporânea faz visibilidade e exige visibilidade, e, exatamente por isto, é nela e com ela que se articulam as novas politicidades” (ROCHA, 2009, p. 989).


Se a mídia tem todas essas possibilidades, não seria difícil entender que ela também pode funcionar por meio de uma lógica produtiva e de uma estratégia articulada para um fim específico a partir de suas próprias escolhas. Deste modo, buscarmos entender como ocorre a construção midiática de um ídolo nocional, ou seja, um jogador de futebol na cena contemporânea.


Construção midiática do jogador Ronaldo


O futebol agrega diversas esferas da vida de um sujeito. “O futebol favorece o desenvolvimento de uma concepção de jogo para a própria vida, uma vez que o espírito de concorrência do cotidiano se vê expresso na essência de uma partida que se propõe ao formato competitivo” (PIEPER, 2010, pp.84-85).


Ainda para Pieper (2010), o futebol espelha de forma bem característica essa realidade de constituição mítica ao formar heróis que oferecem à mídia uma narrativa cheia de superação e conquistas gerando personificação de anseios e desejos. Para essa autora, vão se formando, em especial, conjecturas tangentes de representações sociais, uma vez que se trata de um esporte que faz parte da maioria do povo brasileiro e integra a dinâmica cultural de nosso país. “É um fenômeno que produz vínculos interpessoais, aspirações e conquistas pessoais” (PIEPER, 2010, p.29).


Defendemos que a mídia tem suas estratégias para construir a imagem e a identidade pública de uma pessoa que se destaca na atividade que desenvolve, seja ela uma modalidade esportiva, uma causa, um drama etc. Assim, a construção midiática de um herói nacional ocorre de uma forma mais prolongada: a construção de Ronaldo Nazário de Lima permanece por mais de uma década e foi marcada por uma série de episódios em que havia a ameaça da “morte” do atleta, situação que era alterada por novas construções assim que o atleta superava aquela fase no âmbito da carreira ou mesmo no âmbito da vida, como figura pública.


Essa dicotomia do herói – ora criticado por sua falibilidade, ora elogiado por sua excelência – permitiu que Ronaldo se transformasse num exemplo ímpar de como o mito moderno pode assentar-se no esporte, numa trajetória que só consegue alcançar tal status por força do trabalho da mídia e dos acontecimentos da carreira do atleta intensificados por sua divulgação (MARQUES, 2005, p.9). Ressalte-se que a figura pública deve ter requisitos básicos para que a construção aconteça. Para Vigarello (2002), os heróis do esporte são dotados desses atributos midiáticos, pois eles jogam como nunca com as oposições nacionais e os investimentos coletivos. Para Marques (2005), o fenômeno da idolatria sempre encontrou na mídia o maior e melhor veículo para sua realização, pois os meios de comunicação de massa funcionam como legitimadores de heróis e celebridades, já que também necessitam destes como combustível para o funcionamento de sua engrenagem comercial com o público. “Um grande astro, uma estrela do show business, um esportista vencedor – todas eles são fundamentais para colocarem marcha os mecanismos comerciais que movimentam a produção midiática do mundo ocidental” (MARQUES, 2005, p.3).


Um ponto que consideramos importante na esfera da mídia tem relação com os seus processos, estratégias editoriais e lógicas produtivas que, de certa forma, nos permite constatar e refletir a respeito dessas construções. Para exemplificar esse fato, apresentamos um breve comentário de três reportagens que divulgam Ronaldo em três momentos de sua carreira esportiva. São matérias veiculadas na mídia impressa, mais especificamente em duas Revistas: a VEJA – de publicação semanal, com distribuição nacional, cujos temas são de interesse geral – e a PLACAR – de publicação mensal, tematiza o futebol:


1. Em 1996, edição de 23 de outubro de 1996, a Veja fez uma matéria de seis páginas acerca do jogador Ronaldo Nazário de Lima, quando ele ainda tinha 20 anos de idade. Nessas páginas, tratou de legitimar sua lógica editorial de coroar este jogador como o novo Rei do futebol, dando a ele o posto de ídolo nacional, vago desde a década de 1980, com a aposentadoria de Pelé. Já no início da reportagem, a revista afirma que Ronaldo é “o novo gênio da bola. Matador de goleiros, milionário aos 20 anos, Ronaldinho já é apontado

como um novo Pelé”. A revista também compara o desempenho físico de Ronaldo no futebol com o de atletas excepcionais em outros esportes como o de um velocista de 100 metros. Corpo avantajado e diferente dos demais. Essas qualidades fariam dele um atleta de desempenho exemplar. A alteridade é marcada pelo físico e pelo desempenho excepcionais.


2. Em 2004, edição de julho da revista Placar, observa-se o início da decadência de Ronaldo. Observamos a primeira capa relatando a dificuldade de controlar seu peso. A fama de gordo nasceu na Espanha. A partir dessa publicação, a mídia brasileira começa a fazer diversas indagações sobre o seu peso e desempenho como jogador, analisando números em relação ao seu peso.


3. Em 2009, edição de abril da revista Placar, fase final da carreira do jogador. A reportagem refere-se a Ronaldo como Nove ou 90, fazendo alusão ao seu peso. Ele não consegue perder peso e parar de fumar. A mídia faz comparações de suas duas faces, ou seja, “a dupla face de Ronaldo”, apresentando-o como diferente dos demais jogadores, agora referindo-se ao peso, ao corpo fora de forma. A mídia começa a construir sua aposentadoria:


Se considerarmos essas breves análises pela ótica da Análise do Discurso, podemos afirmar que não há uma verdade oculta atrás do texto. “Há gestos de interpretação que o constituem e que o analista, com seu dispositivo, deve ser capaz de compreender” (ORLANDI 2007, p.26). Dessa forma, podemos admitir que independente das épocas de publicação dessas três matérias, a mídia procurou construir diferentes estratégias e adjetivos para Ronaldo, tratando-o como um jogador exemplar, ao mesmo passo que tratou de evidenciar a sua transição e sua dificuldade de manutenção de seu peso e desempenho nos gramados, além de construir e preparar a sua aposentadoria.


Considerações finais


Em nossa visão, os processos de construção midiática são compostos por distintas estratégias. Esses atributos podem ser de ordem específica ou de critérios de exposição baseado no interesse coletivo. Portanto, entendemos também que uma escolha de editorias só ocorre num contexto de exposição justificada, isto é, uma produção não é só produto do acaso, mas deve ter material para ser um ideário que nutre e direcionada os processos de divulgação da mídia.


O número extenso de reportagens sobre uma mesma pessoa caracteriza a construção midiática que defendemos: a presença na mídia (permanência e visibilidade). Que tipo de sujeito pode trazer com regularidade material para alimentar a mídia? Certamente, o jogador tinha esses atributos para, assim, servir de pauta para a mídia, pois ela não é o todo da cultura, ela é uma parte e expressa somente essa parte, precisando, pois, de material para sustentá-la. Dessa forma, em nossa visão, não haveria melhor personagem a ser analisado do que Ronaldo Nazário de Lima, pois ele foi figura recorrente na mídia em diversas ocasiões e perspectivas, tais como: herói, anti-herói, vilão e exemplo de figura pública e de atleta. Para Marques (2005), a imprensa escrita brasileira, no caso de Ronaldo, operou no sentido de construir e destruir a todo tempo a imagem mítica do jogador, por meio do que esse autor chama de “superdimensionamento da imagem do ídolo e, ao mesmo tempo, por meio da ultraexposição das fraquezas e derrotas do atleta” (MARQUES, 2005, p.7), confirmando o título de nosso artigo, Ascensão e o declínio do corpo do jogador Ronaldo no esporte, o que, de fato, ocorreu sob a ótica da mídia.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


  1. CAMARGO, Francisco Carlos, HOFF, Tânia Márcia Cezar. Erotismo e Mídia. São Paulo: Expressão e Arte, 2002.

  2. CORBIN Alain, COURTINE Jean-Jacques, VIGARELLO Georges. História do Corpo. 1. Da Renascença às Luzes / volume dirigido por Georges Vigarello. 2. As mutações do olhar / volume dirigido pro Alain Corbin. 3. O século XX / volume dirigido por Jean-Jacques Courtine. Revisão da tradução: Ephraim Ferreira Alves. Petrópolis, RJ: Vozes 2008.

  3. MARQUES, José Carlos. O Mito Construído, Destruído e Restituído – O Caso Cíclico de Ronaldo Fenômeno. Trabalho apresentado ao NP 18 – Comunicação e Esporte, do V Encontro dos Núcleos de Pesquisa da Intercom. INTERCOM/2005 - XXVIII CONGRESSO BRASILEIRO. UERJ/RJ – Rio de Janeiro (RJ) - Setembro/2005.

  4. KELLNER, D. A cultura da mídia. Bauru: Edusc, 2001.

  5. MUÑIZ, Elsa, LOST, Mauricio. Pensar el Cuerpo. Departamento de Humanidades. División de Ciencias Sociales y Humanidades. Universidad Autónoma Metropolitana. Universidad Azcapotzalco. México. 2007.

  6. MARTIN-BARBERO, J. Os métodos: dos meios às mediações. In: Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia. Rio de Janeiro: Editor UFRJ, 1997.

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  8. PIEPER, Marcelia Alves. O Retorno do Herói – Ronaldo fenômeno no cerne da constituição mítica e do Comportamento midiático. Dissertação 162f. (Mestrado em Ciências da Comunicação) – Escola de Comunicação e Artes. Universidade de São Paulo. São Paulo. 2010.

  9. ROCHA, Rosamaria Luiza (Rose) de Melo. Cultura da visualidade e estratégias de

  10. (in)visibilidade. Paper apresentado no XV Encontro Anual da Compós. Unesp, Bauru, SP, junho de 2006.

  11. RUBEN G. S. O. e DAMO, A. Futebol e Cultura Série: Enciclopédia da Cultura da América Latina e da Comunicação Social, na Colômbia: Grupo Editorial Norma, 2001.

  12. VILLAS. Daniel O. R. Salerno. El Cuerpo escindido: Los hinchas de fútbol em la televisión. In:

__________________ Pensar el cuerpo. México: División de Ciencias Sociales y Humanidades. Universidad Autónoma Metropolitana, Universidad Azcapotzalco, 2007.




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