Na fronteira entre campos de saber: um olhar sobre as possíveis relações entre o sistema de ...


 

RESULTADO DE INVESTIGACIÓN: Proyecto de maestría: “La temática de la donación de órganos y tejidos como forma de problematización de las cuestiones del cuerpo en las artes y en las ciencias” - Programa de Pós-Graduación en Educación en Ciencias PPGEC, Química de la Vida y la Salud, Universidad Federal de Rio Grande del Sur UFRGS, Puerto Alegre, Brasil - z.cardozo@ibest.com.br

 

Vivemos um momento de incertezas, das culturas intermináveis e dos conceitos líquidos (CANEVACCI, 2005; BAUMAN, 2007) que questionam a linearidade da nossa visão sobre o mundo. Neste período de transição, o sistema das artes, não imune a esta instabilidade, busca a problematização dos próprios conceitos. Diferentes tendências ocupam os mesmos espaços provocando importantes tensões. Os limites entre as diversas modalidades artísticas, que antes da Arte Moderna[1] pareciam ser tão claros, quase que desapareceram, tornaram-se imprecisos. Na atualidade, os indivíduos são constantemente interpelados por discursos que privilegiam os cuidados e as intervenções sobre o corpo (COUTO, 2007; SANT’ANNA, 2004; ORTEGA, 2007). Discursos que também são abordados pela arte contemporânea[2], caracterizada pela simultaneidade e pluralidade de temáticas, técnicas, estilos e reflexões; os questionamentos sobre o corpo aparecem cada vez mais como uma de suas tendências.


Para Jeudy[3] (2002) o corpo como objeto de arte está fundamentalmente ligado à imagem da morte (e isto, tal como explorarei a seguir, constitui-se num ponto importante quando se trata da doação de órgãos) – “e é para rebelar-se contra a soberania dessa lembrança que ele se transfigura em objeto de arte” (p. 21). Esta transfiguração vai além da representação de uma imagem, pensando o corpo como território para a arte, sendo ao mesmo tempo o sujeito e o objeto da ação - a isso, o autor atribui a constituição de um paradoxo fatal, um ponto de tensão.


A professora de História da Arte Viviane Matesco (2003) apresenta um panorama de como o corpo vem sendo apresentado no Brasil desde os anos 1960[4]; a autora focaliza três momentos: happenning[5] e as integrações com o público, na década de 60; a desmaterialização da arte e o corpo como suporte para o protesto político e da contracultura, nos anos 70, e a geração 80/90, com ênfase nas novas tecnologias, pelo retorno ao objeto artístico e a apresentação de uma metáfora do corpo - fragmentado, descarnado, visceral, protético, informático.


Em minha trajetória artística tenho trabalhado com diferentes abordagens sobre o corpo e, na pesquisa que venho desenvolvendo como parte de minha dissertação de mestrado, a representação dos próprios órgãos para doação tem se tornado central. No âmbito desse trabalho cada órgão está sendo construído por meio dos processos de criação artística, em desenho, pintura, objeto e, posteriormente, será apresentado e doado ao público em uma

exposição.


A doação das obras será realizada através de uma ação artística, intitulada Doações do corpo, que tem por objetivo problematizar os aspectos envolvidos com a temática e, também, com o próprio corpo do espectador, que será convidado a participar como receptor para os órgãos apresentados. Essa proposta busca provocar uma tensão entre os campos de saber, especialmente científicos e artísticos, como uma forma de problematização das questões sobre o corpo na atualidade. Para tanto, a ação mimetizará[6] os procesos utilizados, tanto pelo sistema de transplantes de órgãos e tecidos – na escolha dos receptores - como também pelo sistema das artes – na seleção de artistas para exposições.


Esse procedimento também propõe uma questão sobre os critérios e os mecanismos de inclusão/exclusão existentes nos dois sistemas, tensionando a problemática das listas de espera para transplantes e também da falta de espaço para manifestações artísticas e discussões sobre o que está sendo desenvolvido no âmbito das artes.




[1] A Arte Moderna teve início no final do século XIX quando os artistas buscavam pelo novo como forma de romper com a tradição dos movimentos artísticos anteriores.


[2] Termo atribuído à arte atual que teve início na segunda metade do século XX.


[3] Sociólogo do Centre National de la Recherche Scientifique e professor de Estética na Escola de Arquitetura de Paris-Villemin.


[4] Ver Viviane Matesco. O corpo na arte contemporânea brasileira. 2002. In: Ferreira, Glória. Crítica de Arte no Brasil: temáticas contemporâneas. Rio de Janeiro: Funarte, 2006, p. 531-539.


[5] O happenning configurava uma série de ações artísticas simultâneas que questionavam o próprio estatuto da arte e os modos de sua apresentação.


[6] Adoto este termo tal como é utilizado pela Biologia: Mimetismo (do grego mimesis = imitação) é uma adaptação evolutiva em que o ser vivo imita o ambiente ou outro ser vivo e tem vantagens relacionadas à sobrevivência e à reprodução. Ver site: <http://www.brasilescola.com/biologia/mimetismo.htm> Acesso em 09 jan. 2009.




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