O “pode” e o “não pode” na educação infantil: os limites para os gêneros


 

RESULTADO DE INVESTIGACIÓN: Proyecto de investigación: “Tejiendo género y diversidad sexual en los currículos de educación infantil” (2010), Universidad Federal de Lavras UFLA, subsidiado por la Secretaria de Educación Continuada, Alfabetización y Diversidad SECAD, Brasil - Universidad Estatal de Campinas UNICAMP, Campinas SP, Brasil - Facultad de Educación Física

 

Palavras-chave: Identidade; Diferença; Educação Infantil


Através da minha experiência no projeto Tecendo Gênero e Diversidade Sexual nos Currículos da Educação Infantil pretendo problematizar o espaço educacional da Educação Infantil como um dos principais locais de construção dos primeiros saberes da criança, saberes estes que perpassam as construções das diferenças e das identidades. Entendendo assim, a Diferença e a Identidade como processos transitórios e inseparáveis construídos socialmente, alicerçados através de atos de linguagem, ou seja, é através da fala e de construções simbólicas e discursivas que a diferença e a identidade são instituídas (SILVA, 2000).


Neste projeto tivemos a oportunidade do contato direto com as educadoras as quais nos trouxeram suas experiências e dificuldades do seu dia-a-dia quanto à temática do gênero e da sexualidade. Dessa forma, tivemos trocas riquíssimas através dos casos trazidos por elas que nos permitiram, na medida do possível, nos aproximar um pouco mais do cotidiano da creche. Mais abaixo apresentarei um desses casos.


Meu recorte de observação diante desses casos foi no sentido de observar como as ações corporais e a sexualidade da criança é vigiada e controlada desde sempre e como ese controle constrói diferenças e identidades sustentadas pelo “fantasma” da verdade.


A diferença e a identidade, por serem processos construídos e produzidos junto às normas sociais, estão sujeitas a relações de poder, e dessa forma, são impostas perante um campo hierárquico de relações. O processo de classificação, que também pode ser entendido como um processo de significação, ilustra como a sociedade produz e utiliza estas classificações e como hierarquiza as relações através do processo de divisão e classificação, inclusão e exclusão. Tomaz Tadeu Silva (2000) diz ainda que deter o privilégio de clasificar também significa deter o privilégio de atribuir diferentes valores aos grupos assim classificados.


Em nossos encontros, algumas educadoras afirmaram existir uma idade na criança, por volta dos três anos, quando estas já começam a distinguir as diferenças entre os sexos biológicos, refletindo a influência da visão sexista dos adultos. Ou seja, em meio a relações de poder marcam e classificam as diferenças ao mesmo tempo em que definem uma ou outra identidade permitida às crianças, o que determina também uma ou outra ação permitida ou não para cada uma delas.


Apresentarei então um dos casos colocados por uma professora/educadora que ilustra as relações de poder que sustentam e constroem as diferenças e as identidades nas crianças: Certo dia, enquanto as meninas brincavam de passar esmalte vermelho em suas unhas, um dos meninos chegou à professora e falou: “Tia, eu quero passar esmalte vermelho!”. A professora então pergunta ao menino o porquê de sua vontade e o menino responde: “É porque quero pintar minhas unhas da cor do carro do Schumacher!”.


Este caso nos trouxe muitas discussões sobre poder ou não poder passar o esmalte neste menino. Algumas professoras protestaram logo no início dizendo que de forma alguma aquilo poderia ser permitido, pois, o que seria da nossa sociedade se os homens passassem batom e pintassem as unhas?. Outro grupo dizia que devido à escolha da cor ser por causa do carro do Schumacher (o que remetia a algo pertencente ao “mundo” masculino) poderia se reconsiderar a vontade do menino. Muitas professoras disseram que não saberiam como agir e outras poucas se apresentaram mais liberais quanto ao assunto.


Aí está posto um exemplo de como estão presentes as construções das diferenças e das identidades já nos anos iniciais de vida da criança. Primeiramente, proíbe-se ao menino a ação de pintar as unhas, pois esta ação foi histórica e socialmente construída e classificada para pertencer ao mundo das mulheres. Porém, como se trata de educação infantil há, algunas vezes, a idéia de permitir que a criança vivencie tal prática considerando seu direito de exploração do mundo de sensações. Porém, quando isto é permitido, tem-se a necessidade veemente de identificar e educar para que esta prática seja compreendida pela criança como não pertencente ao hall das ações permitidas aos adultos daquele sexo.


Mesmo em alguns casos que é permitido à criança pintar as unhas de vermelho, haverá uma preocupação maior em convencê-la de que mais interessante é ela fazer outras coisas concernentes a determinação de seu sexo biológico.




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