Os sentidos da cirurgia estética: utilidade, futilidade, agência e/ou incorporação


Resumo


Este artigo busca contribuir para a reflexão acerca do crescimento da prática da cirurgia plástica para fins estéticos e sua relação com a cultura de consumo contemporânea. Em outras palavras, discute‐se a maneira como esta prática expressa valores e princípios estruturadores da cultura de consumoe ganha contornos diferenciados em contextos particulares, como as cidades de São Paulo eLondres, onde realizou‐se trabalho de campo, envolvendo a coleta de informações em material deimprensa, dados em arquivos, entrevistas e observação em clínicas estéticas.


Palavras chave: cirurgia plástica, culto ao corpo, cultura de consumo, agência


Abstract


This article aims to reflect on the growth of the practice of plastic surgery for cosmetic purposesand its relationship with the contemporary consumer culture. In other words, we discuss how this practice expresses the values and principles for consumer culture and configures itself differently in different contexts in, as the cities of Sao Paulo and London, where he held field work involving the collection of information in press materials, data files, interviews and observation in clinical aesthetic.


Keywords: cosmetic surgery; body cult; consumer culture; agency



Introdução


As ciências sociais contam com vários estudos que demonstram a forma como o corpo se configura em símbolo de uma cultura, espaço em quese projetam códigos de identidade e de alteridade, sendo os usos que dele se faz, associados ao vestuário, ornamentos e pinturas corporais, indicativos de universos simbólicos, capazes de nos ajudar a melhor compreender o mundo que o envolve. Vários trabalhos etnográficos nos informam a respeito dopapel central ocupado pelo corpo para definição deidentidades e elos de pertença a determinados grupos em sociedades não ocidentalizadas.


Escarificações, tatuagens, pinturas e adornos corporais são recorrentemente identificados por estudiosos como recursos de marcação identitária, indicativos do lugar ocupado por indivíduos ou grupos na sociedade. As pioneiras reflexões de Durkheim (1984) e Mauss (2003), apontam a proeminência do social sobre o individual, postulando a origem social de todo ato classificatório e descartando explicações psicologizantes que partem da idéia de que os homens classificam as coisas e o mundo por uma necessidade interna de seu entendimento individual. Para estes autores, trata‐se de encontrar o lugar de onde se originam os sistemas classificatórios e, ao mesmo tempo, explicar a lógica interna que preside a formação,organização, o processamento e a atualização dos mesmos. Assim, o que caracteriza as referidas classificações é que as idéias estão nelasorganizadas de acordo com o modelo fornecido pelasociedade.


Mary Douglas contribuirá para a reflexão aqui proposta, ao demonstrar a evidência do simbolismosocial no corpo humano. Segundo a autora, osrituais públicos sobre o corpo, por ela estudados, evidenciam interesses coletivos, e não pessoais, poisse o corpo é próprio do indivíduo que participa doritual, o que está sendo gravado na carne humana éa imagem da sociedade. (1976: 143) Haveria uma espécie de estoque de símbolos criados socialmente, que apareceriam nos rituais, que por sua vez, representaria mas formas de relações sociais, o que permitiria aos indivíduos a compreensão de suaprópria sociedade. Nas palavras da autora:Como é verdade que tudo simboliza o corpo, entãotambém é verdade que o corpo simboliza todo o resto.A partir de ste simbolismo, que de camadas emcamadas de significado interior remete à experiênciado eu com seu corpo, o sociólogo encontra justificativa para retirar algumas amostras do “insight” sobre a experiência do eu na sociedade. (Douglas, 1976: 150).


Na mesma linha temos Marcel Mauss, que ao cunhar o conceito de técnicas corporais, defineas como as maneiras como os homens, sociedade por sociedade, de uma forma tradicional, sabem servir‐se de seu corpo (2003: 401). Chamando a atenção para a compreensão das práticas corporais e suas origens e implicações sociais, o autor aponta para o corpo como o arcabouço simbólico da sociedade, signo das representações coletivas. Contribuição importante também nos é fornecida por Pierre Bourdieu (1988), ao demonstrar que a linguagem corporal é marcadora de distinção social. A comunicação corporal ocupa posição fundamental na sua argumentação e construção teórica, que coloca o consumo alimentar, cultural e a forma de apresentação (incluindo o consumo de vestuário, artigos de beleza, higiene e de cuidados e manipulação do corpo em geral) como as três mais importantes maneiras de distinguir‐se, pois são reveladoras das estruturas mais profundas determinadas e determinantes do habitus1.



NOTAS:


1. O conceito de habitus, cunhado por Bourdieu, refere‐se ao processo de interiorização/internalização das regras objetivas, o que ocorre de forma subjetiva. É conformador e orientador da ação, na medida em que é produto das relações sociais e tende a assegurar a reprodução dessas mesmas relações objetivas que o engendram.



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